Olá pessoal!!!

O assunto deste post é sobre como lidamos com a Doença de Alzheimer.

Eu, Cristina Braga, sou enfermeira e sempre me interessei pelo processo de envelhecimento desde menina, buscando respostas que me fizessem entender este fato.

Atualmente, sou pesquisadora na área de Gerontologia (ciência que estuda o processo de envelhecimento) e fico muito feliz quando os meus alunos,  seja durante as aulas ou durante seus trabalhos de conclusão de curso ou iniciação científica, demonstram interesse pelo tema.

A doença de Alzheimer foi descoberta no início do século XX pelo psiquiatra alemão, Alois Alzheimer, ao observar a evolução clínica de uma paciente de 54 anos de nome August Detter. Após sua morte ele resolveu examinar o cérebro da mesma e notou uma certa atrofia em seu córtex,  o peso diminuído do seu cérebro e a presença de elementos anormais na estrutura cerebral que ele chamou de placas senis e novelos neurofibrilares, as quais são as características histopatológicas da doença e responsáveis por sua evolução.

Bem, mas neste post não iremos falar de sinais, sintomas nem o que acontece com o seu portador, mas sim de como esta doença pode mudar nossos conceitos de vida e de relacionamento.

Sempre que possível, busco novas informações e novidades sobre esta doença, e por estes dias,  lendo um artigo sobre saúde do jornal The New York Times  me deparei com o seguinte artigo:

“Henry Rayhons, um fazendeiro de Iowa, foi absolvido na semana passada, de acusações de que  havia abusado sexualmente de sua esposa, portadora  da doença de Alzheimer. Ele foi acusado de ter relações sexuais com ela em uma casa de repouso, em 23 de maio de 2014, oito dias após membros da equipe comunica-lo em uma conversa sobre a doença de sua esposa,  que eles consideravam-na cognitivamente incapaz de consentir,  mesmo assim (segundo relatos), o Sr. Rayhons, 78, teve um relacionamento mutuamente amoroso com sua esposa, Donna, e o caso gerou ampla discussão sobre as regras,  que orientam intimidade com parceiros que desenvolvem demência. Mr. Rayhons falou por uma hora por telefone com um repórter sobre seu relacionamento com a Sra Rayhons, que morreu no ano passado” – Segue trechos da entrevista:

…Eu comecei a perceber um pouco de esquecimento no ano final de 2010. Ela era uma cozinheira fantástica, e o primeiro sinal de que eu percebi, foi o fato de que ela simplesmente  esqueceu que horas eram para servir o jantar…

…Para ser sincero sobre isso, eu realmente não tinha sensação de que ela estava indo ladeira abaixo até 2013. Nós estávamos nisso juntos, e isso não me incomodava muito e não me incomoda muito até hoje, porque ela estava tão feliz só por estar ao meu lado o tempo todo, e ela se comunicava perfeitamente comigo…

…O tempo que ela passou comigo na fazenda, trabalhava no trato com as abelhas e gostávamos de trabalhar com elas. E quando eu sair da fazenda para ajudar meu filho, particularmente no tempo de colheita, ela gostava de me acompanhar. Ela era uma menina participando de tudo….

…Quando ela começou a mostrar sinais da doença de Alzheimer, ela realmente não demonstrou qualquer atitude diferente de nossa intimidade do que aquela de quando nos casamos. Nós dois estávamos por volta dos 70 anos. Mas ela era uma senhora que só queria ser amada. Na parte da manhã, em casa nos fins de semana, ela vinha aconchegar-se . Ela gostava de mordiscar minha orelha e fazer um carinho no meu pescoço. Ela só gostava de estar perto de mim na cama. Ela gostava apenas de dizer ……Vem vamos brincar um pouco…..  Isso nunca mudou desde o dia em que me casei até o dia em que ela faleceu…”

E, aí vem as perguntas:

Como a sociedade lida com o portador desta doença e seus familiares?

Quem somos nós para julgarmos as atitudes de familiares em relação ao familiar e ao portador da doença?

Porque nós seres racionais (humanos) nos achamos no direito de julgar um sentimento tão lindo chamado AMOR?

Será que vou deixar de amar meu marido, minha esposa, meu pai, minha mãe, caso sejam portadores de Alzheimer?

Será que o carinho deve ser evitado se meu amado familiar não consegue compreender o que significa aquele afeto?

Que nada!!!

Pesquisas comprovam pacientes com Alzheimer vivem mais,  se forem cuidados por familiares. Eu sei que é duro você olhar nos olhos de seu ente querido e não se enxergar, ele não te reconhecer, esqueceu de tudo que viveu e aprendeu…

Mas você sabe quem ele é, você sabe o que ele representou para você e você pode dizer isso a ele todos os dias, a todo momento e tenho certeza que por minutos, segundos ou horas ele vai saber que é, foi e será importante para você.

Por isso eu fico indignada que ainda, em pleno século XXI, as pessoas ainda tenham este tipo de preconceito, principalmente com uma doença que pode atingir qualquer um de nós.

Bom, mas para terminar o post, gostaria de contar o fim desta história… Os juízes do caso Henry Rayhons consideraram o réu inocente e ele pode permanecer em paz, sozinho, na casa de repouso onde está aguardando o momento de se encontrar com sua amada esposa.

Segue o artigo em inglês na íntegra: http://www.nytimes.com/2015/04/28/health/an-intimacy-that-outlasted-dementia.html?_r=0

E, para complementar, o vídeo sobre família e Alzheimer

Deixe seu recado

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *