Embora, o impacto negativo da obesidade sobre o risco de morte esteja, agora, bem estabelecido, há um aparente declínio no que se acredita sobre o risco da obesidade em relação ao aumento da idade.

Isto levou alguns especialistas a concluírem que a obesidade não deve necessariamente ser vista como uma doença em indivíduos com idade superior a 55 anos.

Se tal mudança na abordagem da obesidade em indivíduos maduros é, prematuramente, aceita, ela não só pode desencorajar a perda de peso em pessoas desta faixa etária, mas também pode promover uma desculpa para abusos nutricionais e no estilo de vida.

O objetivo do presente texto é descrever, resumidamente, as dificuldades relacionadas com a obesidade nas pessoas maduras, bem como mostrar que as complicações induzidas por ela estão acima da verdadeira doença, e que afetam, gravemente, a qualidade e limita a vida útil do indivíduo.

Obesidade, hipertensão, diabetes e síndrome metabólica

A incidência de hipertensão, diabetes, e da síndrome metabólica se intensifica com o aumento da idade, e está estreitamente relacionada com o aumento da prevalência da maior parte das anomalias que contribuem para a síndrome metabólica (um termo médico para designar o conjunto de fatores de risco fortemente relacionados com o desenvolvimento de doenças cardíacas, acidente vascular encefálico e diabetes mellitus tipo II).

A incidência da síndrome metabólica aumenta com a obesidade e, a maior circunferência abdominal é mais comum em homens com mais de 65 anos do que nos grupos etários mais jovens.

A ocorrência da síndrome metabólica é maior a partir de 60 anos para os homens e a partir de 70 anos para as mulheres. E, um declínio é observado apenas a partir de 80 anos para os homens e para algumas mulheres em diferentes grupos étnicos.

Foi, recentemente, destacado pelo Comité de Educação Profissional da Associação Americana do Coração, que idade mais avançada e obesidade são dois dos fatores de risco mais poderosos para o desenvolvimento de hipertensão, que por sua vez, é um dos principais determinantes de mortalidade e incidência de AVE, especialmente na terceira idade.

Ao mesmo tempo que obesidade e gordura abdominal são, significativamente e de forma independente, associados com um aumento do aparecimento da diabetes tipo 2 e hipertensão. Por isso, a separação de gordura abdominal de suas sequelas mais próximas, ou seja, a síndrome metabólica, hipertensão e diabetes, é um pouco artificial, especialmente para as pessoas maduras.

A obesidade influencia fortemente esses fatores de risco, o que, com o passar do tempo, podem dominar diretamente a ocorrência de complicações.

A comprovação mais forte para essa sequência de eventos é o fato de que uma tentativa de perda de peso está associada com menor mortalidade por qualquer causa, independentemente da idade.

Obesidade e mortalidade

Vários estudos de grande escala indicaram que, tanto o sobrepeso quanto a obesidade, em todas as idades e em ambos os sexos, particularmente em indivíduos que nunca fumaram e que não tinham histórico de doença, estão ligadas a um aumento da mortalidade.

Assim, o aumento nas taxas de mortalidade associado com a obesidade ainda é muito maior em pessoas maduras, simplesmente devido ao aumento das taxas de mortalidade nesta faixa etária.

Esta relação pode não existir para o indivíduo com mais de 80 anos, no qual as taxas de mortalidade podem ser devidas a câncer ou problemas cardiovasculares que evoluíram ao longo da vida. No entanto, isso não pode ser extrapolado para a população idosa em geral, ou visto como evidência de que a obesidade é, geralmente, benéfica a partir de 60 anos.

O verdadeiro impacto do sobrepeso e da obesidade sobre a mortalidade pode ser obscurecida por fatores de confusão.

Por exemplo, alguma doença crônica pré-existente e o hábito de fumar podem mascarar o efeito da obesidade nos casos de morte, pois irá acreditar que o falecimento do indivíduo se deu devido a estas condições e, não devido a obesidade.

Em algumas doenças distintas das pessoas maduras, tais como a doença de Alzheimer ou de Parkinson, a perda de peso que ocorre devido a elas provoca, assim, falsa representação de morbidade e mortalidade em indivíduos magros.

Vantagens para a saúde das pessoas maduras obesas: ossos resistentes e o “paradoxo da obesidade”

Foram divulgados 2 benefícios do excesso de peso sobre a saúde das pessoas maduras: diminuição da osteoporose e melhora da sobrevida dos pacientes obesos com certos riscos para a saúde, associada ao aumento da densidade mineral óssea. Essa relação foi chamada de “paradoxo da obesidade”.

Até agora incontestável, como é o fato de que esta também se traduz numa menor taxa de fraturas no quadril em pessoas maduras obesas. Este fato pode refletir não só em uma capacidade maior do osso se refazer após uma fratura, mas também melhorou o amortecimento pelo tecido adiposo durante quedas.

Uma exceção emergente importante para esse efeito protetor geral da obesidade no osso é a recente descoberta de que embora os homens e mulheres com a síndrome metabólica, de fato, gozam de melhor total do quadril e da densidade mineral óssea do colo do fêmur, estas associações não se traduzem na evolução clínica melhorada.

Na verdade, as fraturas clínicas incidentes foram 2,6 vezes mais prováveis de ocorrer em indivíduos obesos em comparação com os indivíduos de peso normal, após uma média de seguimento de 2 anos.

O “paradoxo da obesidade” refere-se aos resultados inesperados de que indivíduos obesos parece saírem-se melhor do que indivíduos de peso normal em termos de taxas de mortalidade em determinadas situações, tais como a doença da artéria coronária em indivíduos hipertensos, insuficiência cardíaca congestiva, doença renal crônica, em hemodiálise, revascularização da coronária, e em infarto do miocárdio.

Entretanto, não está claro se estes fatos estão relacionados com a obesidade em si, ou refletem o estado nutricional do indivíduo. Permanece incerto como idade mais avançada interage com esses efeitos protetores do excesso de gordura.

Além disso, a obesidade não é um “salvador” geral das condições médicas agudas. Assim, este fenômeno, interessante e potencialmente crítico, permanece desconhecido, exigindo pesquisas mais profundas específicas para a idade. Como exemplo deste efeito, há 20 anos, a obesidade na população idosa estava ligada ao aumento de duas vezes de infarto do miocárdio e mortalidade em pacientes com mais de 65 anos. A obesidade foi alterada pelo ambiente, ou avanços na medicina, ou avanços na qualidade dos cuidados intensivos?

Obesidade e doenças cardiovasculares

As complicações cardíacas têm sido associadas ao aumento da gordura abdominal, mas em muitos relatórios, a obesidade é quantificada em termos de IMC sozinho, em vez do que a circunferência da cintura, que pode potencialmente mascarar a associação de gordura abdominal e doença cardiovascular.

No entanto, evidências indicam que as pessoas maduras obesas são mais propensas a morbidade cardiovascular.

Um estudo demonstrou que os homens com mais de 65 anos e que apresentavam um acumulo de gordura abdominal, tinham 2,76 vezes maior risco de doença coronariana.

Além deste estudo, vários outros apoiam uma associação entre a obesidade, particularmente, a gordura abdominal, e o aumento da propensão para doenças cardiovasculares, predominantemente a doença coronariana.

Obesidade e a incidência de acidente vascular encefálico (AVE)

A associação entre obesidade e AVE (popular “derrame cerebral”) nas pessoas maduras tem sido inconsistente e pode estar relacionada com o gênero (sexo) da pessoa.

Um estudo canadense não encontrou que a obesidade seja um fator predisponente para o AVE nesta faixa etária.

Por outro lado, o Honolulu Heart Program, que ao longo de 22 anos acompanhou 1.163 homens não-fumantes com idade entre 55-68 anos, descobriu que a taxa de AVE aumentou significativamente com o aumento dos níveis de gordura corpórea.

Em outro estudo do Framingham Offspring, indivíduos com idades entre 50-81 anos, o risco de AVE foi maior para obesos do que para indivíduos diabéticos, particularmente em mulheres.

A obesidade pode ser um fator para a redução cognitiva e doença de Alzheimer

Nas pessoas maduras, a combinação de uma circunferência abdominal aumentada ou obesidade, e que apresentavam hipertensão, estava ligado a uma diminuição no desempenho em testes de velocidade física e destreza manual.

O estudo de Framingham Heart, compreendendo os participantes do sexo masculino (com idades entre 55-88 anos), por um período de 18 anos revelou que a obesidade teve um efeito adverso no desempenho cognitivo.

Outro estudo sueco, mostrou que adultos não dementes que foram acompanhados a partir de 70 anos de idade, a presença da obesidade foi associada ao aumento da propensão para a demência. Além disso, a associação pareceu ser tão profunda que o risco para a doença de Alzheimer aumentou numa relação direta com o aumento do peso do indivíduo.

Obesidade, mobilidade e independência física

A falta de atividade física é um importante fator do acumulo de tecido adiposo em humanos, e por sua vez, tem efeitos profundos negativos sobre o metabolismo rápido do músculo esquelético, fazendo com que o individuo tenha dificuldades para se locomover.

Diferentemente da associação comum de obesidade com o aumento da massa corporal magra e volume muscular em adultos jovens, as pessoas maduras obesas desenvolvem frequentemente sarcopenia, que é a redução da massa corporal magra (músculos).

Mobilidade reduzida nas pessoas maduras obesos é, portanto, surpreendente.

Um estudo recente de 2.982 indivíduos, com idades entre 70-79 anos, acompanhados durante 6,5 anos, revelou que a obesidade aumentou o risco de limitação da mobilidade.

Obesidade e a fragilidade

A obesidade agrava claramente o declínio relacionado com a idade na função física e provoca fragilidade em pessoas maduras.

Fragilidade nas pessoas maduras pode estar relacionada com a resistência à insulina e a inflamação que frequentemente acompanham a obesidade.

Este fato se reflete pelo comprometimento em atividades da vida diária do idoso obeso, limitações de mobilidade e diminuição do desempenho físico, aumento do risco de declínio funcional e uma maior taxa de admissões em casas de repouso.

Obesidade e osteoartrite degenerativa

O aumento da massa corporal tem um impacto negativo sobre as articulações que suportam peso, e osteoartrite do joelho é particularmente comum em homens obesos (58%) e mulheres (68%) com a idade de 65 anos ou mais.

A limitação física causada por esta condição é muito evidente, mas pouca atenção é dada a sobre a dor e o consumo excessivo crônico de analgésicos, que muitas vezes está ligado ao desenvolvimento da hipertensão e problemas renais.

Disfunção sexual e obesidade

Um estudo recente indicou que a obesidade abdominal, está associada com a presença da disfunção erétil em homens com mais de 60 anos, mas não em homens mais jovens.

Embora a idade pareça ser o principal determinante da disfunção erétil, a obesidade teve um efeito potencializador independente, aumentando a razão de chances para a impotência.

Em um estudo em homens com mais de 50 anos de idade, foi demonstrado que a obesidade, independente de outros fatores, aumentou o risco de disfunção erétil em 30%.

Incontinência urinária em pessoas maduras obesas

A obesidade é um fator de contribuição para incontinência urinária em mulheres e homens maduros.

Embora o mecanismo preciso subjacente não seja claro, o excesso de peso e a pressão aplicada sobre a bexiga através do aumento da massa de gordura intra-abdominal parece ser um contribuinte razoável para esta complicação.

Obesidade e doenças renais

Embora a prevalência de insuficiência renal aumente com a idade, a obesidade é um fator de risco significativo para esta condição.

Dados de 57 estudos estabelecem uma ligação clara entre a obesidade e a mortalidade causada pela doença renal, de modo que a morte por doença renal aumentou progressivamente com a obesidade.

Embora as tendências específicas da idade não foram fornecidas, a taxa de risco nestas análises foi baseada em dados até a idade de 79 anos.

Um relatório recente indicou que o aumento da gordura abdominal foi um fator, significativo e independente, de doença renal crônica em pessoas maduras de Taiwan e afro-americanos.

Neste sentido, estes dados sugerem que a obesidade, a gordura abdominal particularmente, confere um efeito negativo sobre a doença renal na população mais velha.

CONCLUSÕES

A obesidade, por si só, continua a contribuir para a mortalidade em idade avançada.

Assim, pessoas maduras obesas são mais propensas a ter hipertensão, diabetes, desenvolver doença arterial coronariana, acidente vascular encefálico, desenvolver disfunção erétil, acelerar a perda da função cognitiva, incontinência urinária, fragilidade, osteoartrite e incapacidade funcional.

O agrupamento de tantas situações resultantes ou associadas a obesidade, particularmente em pessoas maduras, é importante ver esta situação como uma doença primária real que requer atenção e cuidados médicos.

Fonte:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2811458/

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